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PRIVATIZAÇÃO DAS GUERRAS. Brasil forma combatentes das Military Private Companies.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL





Em 2003, o presidente George W.Bush anunciou a sua disposição de substituir, no Iraque, os soldados norte-americanos por empregados das Military Private Companies (MPCs).

À época, Bush precisava acalmar a sociedade civil, inconformada com as constantes mortes de jovens soldados enviados ao Iraque e incomodada com as mentiras sobre as armas químicas e nucleares de Saddam Hussen e a sua aliança com a Al Qaeda de Osama bin Laden.

Com a contratação de comerciais empresas privadas, prestadoras de serviços de segurança militarizada, os soldados norte-americanos, convocados pela administração Bush, saíriam de cena e não mais haveria riscos de baixas. Assim, eventuais mortes seriam de empregados que, voluntariamente, teriam celebrado contratos de trabalho de risco, com polpudos salários e seguro com prêmio não desprezível.

Além disso, as MPCs ficariam à disposição do governo iraquiano e, também, serviriam para treinar a nova força de ordem daquele país. Como foi lembrado na ocasião, as MPCs adestraram, em 1995, as forças separatistas da Croácia e da Bósnia-Herzegovina, empenhadas em combater o Exército iuguslavo e os paramilitares da Sérvia, empenhados na chamada “limpeza étnica” do então presidente Slobodan Milosevic.

As MPCs foram constituídas mundo afora, -- e está aí o famigerado Giampiero Spinelli, com a suas Presidium e First Line--, para contornar as pressões da ONU que, em 1989, quis proibir, por Convenção, o recrutamento, o emprego, o financiamento e o adestramento de mercenários.

A Convenção não alcançou o quorum necessário para a sua ratificação. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França manifestaram-se expressamente contrários à Convenção. Aliás, não se espera conduta diversa, pois esses países, nos últimos 40 anos, foram os que mais usaram mercenários, pagos pelas suas agências de inteligência: CIA, MI-6 e Sdece.

Nos anos 90, as MPCs atuaram de forma escancarada na África. Por exemplo, para conter, em Angola e com aval dos EUA, o avanço dos rebeldes da Unita. Em outras palavras, saíram os mercenários,-- e quem não lembra de nomes famosos como Robert Denard, Jean Schramme e Mike Hoare, este apelidado de Mad--, e entraram os “exércitos privados”.

Em 2003 e os mercenários de fora das novas estrategias geopolíticas, procurou-se avançar na idéia de substituição dos contingentes dos “capacetes azuis” da ONU, por empresas privadas.

No último confronto ocorrido no Líbano, e a envolver Israel e o hezbollah, voltou-se a se cogitar nas MPCs, em especial quando a França começou a tirar o corpo.

A matéria publicada na última edição domenical do Corriere della Sera, assinada pelo jornalista Rocco Cotroneo, compara, motivada pela publicação de Carta Capital, as ações de Giampiero Spinelli na Itália e no Brasil. Mais ainda, deixa claro que a Presidium, de Spinelli, tem contas a ajustar com o Ministério Público de Bari, por recrutamentos e emprego de armamentos não autorizados, tudo a serviço de um estado estrangeiro, no caso os EUA.

Da tragédia de 2004, depois do seqüestro no Iraque de quatro italianos empregados da Presidium, e com um deles assassinado (Fabrizio Quattrocchi) pelos insurgentes, Spinelli resolveu recrutar no Brasil.

Como bem lembrou a matéria do Corriere della Sera, Spinelli “há dovuto vedersela con la giustizia”.

*Walter Fanganiello Maierovitch, preside o Instituo Giovanni Falcone e é colunista da Revista Carta Capital.

WFM, 3 fevereiro de 2007.

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Military Private Companies: licença para matar.


RETROSPECTICA, em 01 de feveiro de 2007.


Matéria de Carta Capital, sobre o italiano Spinelli, proprietário de empresas privadas de segurança, que manda combatentes para o Iraque.

*Jornal O DIA.

Os ex-militares brasileiros aliciados pelo italiano Giovanni Piero Spinelli, 32 anos, para trabalhar como mercenários no Iraque, receberiam US$ 3 mil por mês por contrato de dois anos. O valor equivale a R$ 6.420 em moeda atual, cerca de seis vezes o salário de um cabo, por exemplo. A proposta teria atraído pelo menos cinco militares da reserva: dois sargentos, dois cabos e um soldado. Além do dinheiro, a aventura de participar de uma guerra real era o que mais os seduzia.

. Os militares que teriam partido do Rio trabalhariam como "gorilas", ou seja, prestariam serviços de segurança para executivos e empresas estrangeiras no Iraque. Os soldados teriam sido contratados pela empresa First Line, fundada em 2005 por Spinelli e mais dois sócios italianos ¿ Cristiano Meli e Salvatore Miglio.

O escritório funcionava no número 87 da Rua do Ouvidor, no Centro do Rio. Os proprietários embolsariam US$ 2 mil para cada brasileiro contratado para a missão.

Segundo a edição de ontem da revista Carta Capital, Spinelli teria contado com a conivência do comandante do Centro de Instrução do Gericinó, em Deodoro, na zona oeste do Rio, tenente-coronel Roberto Raimundo Criscuoli, para que o esquema de recrutamento funcionasse na Vila Militar.

O nome do oficial aparece no Inquérito Policial Militar (IPM) que apura a utilização de Gericinó para o treinamento de soldados da reserva que iriam para o exterior, a serviço da empresa de Spinelli. Durante os cursos, teriam sido utilizados armamentos do Exército, com autorização de Criscuoli, segundo a jornalista Cláudia Morais, que durante cinco meses trabalhou como assessora de imprensa da First Line no Brasil.

A ex-mulher do oficial, a psicóloga Celina Maria Lourega, também estaria envolvida. Ela faria as entrevistas e os testes psicológicos para seleção dos militares. Segundo a Carta Capital, também seria sócia de Spinelli e Meli na Intact Brazil Assessoria e Consultoria Técnica Ltda.

Um general também teria sido citado no processo. O IPM está sob sigilo de Justiça, e tem prazo de 40 dias, prorrogáveis por mais 20, para ser concluído.

Spinelli já é conhecido da polícia brasileira: ele foi preso com equipamentos militares, em fevereiro de 2006, por policiais que investigavam denúncia de furto de energia no escritório da First Line.

Mesmo assim, foi contratado para dar cursos às polícias Civil e Militar, treinando agentes que vão trabalhar na segurança dos Jogos Pan-Americanos. A Academia da Polícia Civil tem um currículo do italiano em seus arquivos.

Spinelli: 'persona non grata' na Itália
Spinelli está impedido de entrar na Itália desde 2004, por ter recrutado italianos para servir no Iraque, o que é proibido no país. Quatro italianos contratados por ele foram seqüestrados por guerrilheiros iraquianos. Suas imagens foram exibidas em todo o mundo pela TV Al-Jazeera. Um deles, Fabrizio Quattrocchi, foi executado com um tiro na nuca diante da câmera, no dia 14 de abril de 2004.

A imagem chocou o mundo e causou uma onda de pedidos para que os guerrilheiros poupassem os outros ¿ Umberto Cupertino, Salvatore Stefio e Maurizio Agliana. Até o Papa João Paulo II pediu a libertação dos reféns.

No dia 8 de junho, após operação até hoje pouco explicada, os três foram libertados e voltaram à Itália no avião presidencial. Foram recebidos como heróis por todos, menos pelo juiz Giuseppe de Benedictis, do Tribunal de Bari, encarregado de investigar o caso.

Benedictis constatou que eles eram mercenários e proibiu Spinelli, que trabalhava para a empresa americana Dyncorp, de retornar à Itália. Segundo a revista Carta Capital, o italiano também está ilegal no Brasil: seu passaporte está vencido desde 2005. Atualmente, ele mora em Cravinhos (SP).

Oficial acompanhou treinamentos.

A jornalista Cláudia Morais conta que conheceu Spinelli por intermédio de um amigo comum, um professor de artes marciais, que identifica apenas como Mário Sérgio. Procurado por telefone, ele não atendeu às ligações.

Cláudia foi contratada por Spinelli para prestar serviços de assessoria de imprensa para a First Line. A jornalista seria encarregada de enviar reportagens sobre a participação da empresa no conflito do Iraque à revista européia Raids, especializada em cobertura de guerra e assuntos militares.

Ela participou de treinamento com Spinelli e mais de 30 militares da reserva em Gericinó por uma semana, e garante que os armamentos utilizados eram do Exército Brasileiro. Cláudia confirma que o tenente-coronel Roberto Criscuoli autorizou os treinamentos.

"Ele acompanhou a gente", informou a jornalista a O Dia. Ela não sabe se algum militar brasileiro foi para o Iraque, mas confirma que esse era o objetivo da preparação. "Que eu saiba, todos nós ali iríamos para o Iraque. Essa era a proposta", garante.

Após cinco meses, o plano foi abortado. Segundo Cláudia, a razão foi a falta de dinheiro. "O Salvatore (Miglio) tinha garantido que iria financiar tudo, mas descobriram que ele não tinha dinheiro", conta. A própria jornalista acabou sem receber seu salário.

A intenção dos sócios, afirma Cláudia, era tornar a First Line uma réplica da empresa americana Black Water, a maior das companhias privadas militares, que recrutam mercenários. A organização emprega lobistas para atuar no Congresso americano e trabalha com o Pentágono.
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RETROSPEVTIVA, 9 julho de 2003.
*Wálter Fanganiello Maierovitch, para revista CARTA CAPITAL.

CÃES DE GUERRA CORPORATIVOS.


No Brasil, estamos acostumados às empresas comerciais que cuidam da segurança das residências, dos supermercados, das agências bancárias, dos transportes de valores e das pessoas sob risco de seqüestro para o fim único de extorsão patrimonial. Por aqui, não conhecemos as sociedades transnacionais de vigilância especial, sediadas no Primeiro Mundo. Aquelas que prestam serviços comerciais e proclamam seguir o modelo militarizado dos “capacetes azuis” da Organização das Nações Unidas (ONU).
Essas multinacionais contam nos seus quadros com generais reformados, plenos de experiências adquiridas em diferentes campos de batalha e carregados de medalhas por bravura. Essas sociedades comerciais são chamadas de Private Military Companies (PMC).

Não fossem as formalidades e as cláusulas dos contratos sociais de constituição – que as colocam na legalidade como pessoas jurídicas –, poderiam ser confundidas e passar por associações hierarquizadas de mercenários. Ingenuidade de lado, as PMC também assumem a condição de longa manus da CIA norte-americana.

Como regra, as PMC são contratadas para vigiar, proteger e treinar, em países pobres ou em desenvolvimento – marcados por reais ou potenciais conflitos intestinos –, os ditadores e os chefes de Estado ou de governo. Protegem, ainda, a vida dos líderes de oposição, ou seja, desde que classificados na categoria daqueles que não podem sofrer atentados, em razão de estarem afinados com interesses de grandes potências ou de antigos colonizadores.

As PMC são muito requisitadas por grupos econômicos que exploram, pelo Terceiro Mundo, rendosas atividades extrativas. Os mencionados grupos econômicos sentem a necessidade de proteger a posse de áreas e os seus prepostos, esses na condição de residentes estrangeiros. Nessa situação, por exemplo, encontram-se os representantes de cerca de 600 sociedades comerciais que, desde o tempo da colonização francesa, exploram, em grandes fazendas, a cultura do cacau na Costa do Marfim.

Pode-se afirmar ainda que as PMC já viraram moda na África e na Ásia e isso quando ficam na alça de mira pessoas que precisam ser mantidas vivas, pois são fundamentais na abertura ou na manutenção de negócios e interesses geopolíticos.

Para se ter uma idéia, até o corpo de funcionários e de voluntários da Unicef, enviados ao Afeganistão e ao Paquistão, foi garantido pelas PMC. No caso, pela britânica L´Armor Group e pela estadunidense Armor Holdings e durante os conflitos envolvendo os norte-americanos, os talebans, o chefe e os membros da Al-Qaeda.

Coube à Vinnell Corporation Fairfax, com sede na Virgínia, formar e adestrar a Guarda Nacional da Arábia Saudita, incumbida de amparar o soberano doente, parte da sua família real e alguns dos sucessores de sangue azul. Formada por oficiais militares que ocuparam postos de importância no Pentágono e estão na reserva, a Military Professional Ressources Inc (MPRI) constituiu, treinou e monitorou grupos armados que lutaram ao lado dos separatistas na ex-Iugoslávia.

A mencionada MPRI formou grupos de combatentes para ações no Kuwait, na Colômbia, na Guiné Equatorial e na Nigéria, isso depois da morte do ditador-general Sani Abacha. Na Costa do Marfim, as contratadas PMC e os seus homens apelidados de war dogs, armados até os dentes, protegem as empresas que exploram as fazendas de cacau (primeira produtora mundial), algodão e café (sexta produtora). Evitam invasões e repelem ataques promovidos por grupos étnicos em conflito e por mercenários liberianos, sul-africanos, israelenses, tchecos, bielo-russos, búlgaros e ucranianos.

Mercenários e o grupo étnico dos betés sustentam o presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo. No meio disso tudo, circulam tropas enviadas pelo presidente Jacques Chirac, inimigo de Gbagbo, para proteção de uma comunidade francesa estimada em 17 mil pessoas. Revoltas, atentados, massacres e luta pelo poder caracterizam a Costa do Marfim e representam um bom nicho comercial para as PMC. Em 1960, esse país da África Ocidental livrou-se da colonização francesa e assumiu a Presidência Félix Houphouët-Boigny. No papel de “pai da pátria”, virou ditador e exerceu o poder até a sua morte em 1993.

A partir de 1993, o racismo, a xenofobia e os genocídios ganharam espaço na vida desse país, a ponto de Chirac ameaçar representar ao recém-instalado Tribunal Penal Internacional. Esse país se transformou num território regado a sangue e nele a proteção dada pelos grupos armados consegue preservar os vastas áreas de cultivos de cacau, café, algodão, sisal, óleo de palma, abacaxi, tabaco, etc. E são mantidas as atividades comerciais desenvolvidas nos movimentados portos de Abidjã e San Pedro.

O falecido Houphouët-Boigny, quando da independência da França, abriu as fronteiras da nova República da Costa do Marfim aos povos de fronteiras vizinhas. O objetivo foi atrair mão-de-obra barata, com o aproveitamento da situação de desemprego na Libéria, Gana, Mali e Burkina Fasso. Hoje, com uma população beirando os 11 milhões de habitantes na Costa do Marfim, mais de 25% são originários de diferentes países africanos.

Henry Konan Bédié, da etnia baoulé, sucedeu Houphouët-Boigny, mantido o governo nas mãos do Parti Démocratique de Côte D´Ivoire. À semelhança de Slobodan Milosevic na ex-Iugoslávia, Bédié desfraldou a bandeira da ideologia nacionalista e partiu para a chamada “depuração étnica”. Apenas os “ivorianos puros” podem possuir as terras e exercitar o direito de voto.

Como cercou-se de corruptos que desviavam recursos internacionais, o governo de Bédié caiu internacionalmente em desgraça. E os grupos estrangeiros ligados à exploração do cacau apoiaram financeiramente os rebeldes do Mouvement Patriotique de la Côte D´Ivoire (MPCI), chefiados pelo general Robert Guei, que tomou o poder na noite de Natal do ano de 1999.
O golpe militar durou pouco e, à força, em outubro de 2002, conseguiu Laurent Gbagbo, atual presidente, retomar o poder civil. No ano passado, o general Guei foi assassinado e suspeita-se que a guarda particular de Gbagbo, treinada por uma das PMC espalhadas pelo planeta, tenha sido a responsável pelo crime.

Um dos líderes da resistência na Costa do Marfim é Alessane Dramane Ouattara, que chegou ao cargo de diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Antes disso, ocupou as funções de primeiro-ministro no governo de Houphouët-Boigny. Como os pais de Ouattara nasceram em Burkina Fasso, as leis discriminantes – fundadas na tal “pureza étnica” imposta por Bédié – chanceladas por Gbagbo, impedem que ele concorra à Presidência.
Ouattara é da etnia dioula e muçulmano. O presidente Gbagbo, que esteve preso quando Ouattara era primeiro- ministro e teve de se exilar em Paris de 1982 a 1988, é da etnia beté. É ligado aos evangélicos e aos pentecostais.

Os soldados franceses enviados por Chirac permanecem na Costa do Marfim. Sofrem freqüentes ataques, pois o presidente Gbagbo nutre ódio pelos antigos colonizadores e deseja expulsar as empresas e os residentes franceses. Depois de o presidente Chirac ter ameaçado representar contra Gbagbo no TPI por genocídios, crimes contra a humanidade e manutenção de esquadrões da morte dirigidos por mercenários, veio o troco. Gbagbo propôs aliança aos norte-americanos.

Como se percebe, esse cenário é o ideal para as PMC, pois há conflitos, escaramuças, paramilitares, esquadrões da morte, mercenários, grupos étnicos e bandos armados em profusão.

Nesse ambiente, não faltam armas leves e pesadas, combustíveis, telefones celulares GSM e satelitais do tipo Thuraya. Tudo proveniente de Burkina Fasso e, segundo fontes de inteligência, do Egito e, surpreendentemente, da Líbia, sob embargo de compra de armas imposto pela ONU. As drogas são empregadas como moeda para a troca e a compra. Uma parte da droga fica na Costa do Marfim para cobrir as despesas de transporte, pois essas provêm de narco-estados fronteiriços, como Guiné Equatorial e Libéria. Em resumo, um grande caos no qual não falta a moda das Private Military Companies.

Muitas dessas PMC ambicionam prestar serviços nos morros do Rio de Janeiro, na Tríplice Fronteira e, na região amazônica, em pontos da fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

WFM,9 julho de 2003.

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RETROSPECTIVA.



-Wálter Fanganiello Maierovitch, para Carta Capital, em julho de 2003..


TERCEIRIZAÇÃO DAS GUERRAS.

No Iraque, substituir os soldados norte-americanos por empregados das Military Private Companies (MPCs) é o grande sonho do presidente George W. Bush. Só que não vai dar para fazer a terceirização antes das eleições. Em razão disso, Bush corre o risco de não se reeleger e vive o pesadelo das constantes mortes dos seus soldados, cujos sepultamentos quer esconder da imprensa e da opinião pública.

O contingente de empregados pelas MPCs não é ainda suficiente para possibilitar a saída dos jovens soldados norte-americanos. Além disso, existe uma questão global de geopolítica e, do lado das MPCs, inúmeros contratos em vigor pelo planeta. Todos eles com cláusulas prevendo pesadas multas por rescisão. Fica impossível, por exemplo, a empresa norte-americana de segurança privada – e razão social Military Professional Resources Inc. (MPRI) – tirar os seus homens da Guiné.

O coronel e ditador Lansana Conté, no poder desde 1984, pode cair caso deixe de contar com a proteção militar da mencionada empresa. E as MPCs são iguais aos contraventores do bicho, ou seja, não cumpriu o estabelecido tem de fechar o “negócio”. Nos EUA, é forte o pacta sunt servanda (os contratos devem ser cumpridos), velho princípio contratual do Direito Romano. Pelo lado pragmático, e trocando em miúdos, não dá para desvestir um santo na África para vestir outro na Ásia. E como ficaria o prestígio de uma MPRI, cujo site na internet avisa, numa frase talvez cunhada pelo secretário Anthony Garotinho: “Fornecemos ao mundo a melhor defesa e os melhores treinamentos para os leaderships”.

Outro detalhe, ainda no exemplo da Guiné, o enfraquecimento de Conté daria um bom motivo para o reinício dos conflitos entre esse país, Serra Leoa e Libéria, precariamente suspensos em 27 de fevereiro de 2002.

Para se ter uma idéia, estão trabalhando para as MPCs no Iraque pouco mais 30 mil civis de diferentes nacionalidades: quatro italianos foram seqüestrados, isso antes de o premier José Luis Rodríguez Zapatero, para não aderir às justificativas mentirosas de Bush, mandar os soldados espanhóis prepararem as malas para voltar para casa. No filão explorado pelas MPCs, as informações de bastidores contam muito. A empresa de segurança Halliburton, presidida até agosto de 2000 pelo vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, saiu na frente das outras. Quando a invasão do Iraque era iminente, a Halliburton já havia mandado seus empregados para lá, para tomar conta dos poços de petróleo das suas clientes.

Há dez anos, as MPCs contavam com recursos humanos equivalentes a 1% do contingente militar dos EUA. Hoje, o número dos tais “soldados privados” cresceu e ultrapassa os 10% do ativo militar norte-americano.

Em todo o planeta encontram-se em curso 50 conflitos armados. O próprio governo norte-americano contrata essas “milícias privadas”. E, para as contratações, o Ministério da Defesa conta com um budget anual de US$ 38 bilhões. Os prisioneiros recolhidos na base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, são vigiados e “cuidados” pela empresa de segurança Kellog-Brow & Root, associada à supracitada Halliburton, já presidida, frise-se, por Dick Cheney.

A empresa militarizada de segurança DynCorp ficou com várias contas do governo, incluído o derrame de herbicidas, com seus aviões, sobre as plantações de coca na Colômbia. Um grupo de empregados combatentes da DynCorp já sofreu acusações de explorar a prostituição (lenocínio) na Bósnia, durante a guerra na ex-Iugoslávia. Coube à citada MPRI adestrar as forças regulares de resistência da Croácia e da Bósnia para enfrentar as milícias sérvias, a serviço de Slobodan Milosevic, preso e réu perante o Tribunal Penal Internacional.

Uma empresa de capital misto, holandês e norte-americano, empregou ex-fuzileiros para cumprir um contrato com o governo das Filipinas. O contrato estabelece a prestação de serviços de segurança voltados ao combate da pirataria marítima, nas águas do Mar das Filipinas, no Sudeste Asiático.

Essas empresas comerciais de segurança militarizada surgiram para substituir as contratações verbais e a perda de controle sobre os mercenários, apelidados de cães de guerra. Nos anos 60, a ONU adotou uma série de resoluções para colocar na ilegalidade os mercenários, em especial os que combatiam na secessão do Congo. E a Convenção de 1989 impedia, pelos Estados membros, o recrutamento, o uso, o financiamento e o adestramento de mercenários.

Grã-Bretanha, França e EUA não assinaram a Convenção de 1989. Esses três países, nos anos 40, por meio das suas agências de inteligência (Mi-6, Sdece e CIA, respectivamente), contratavam mercenários para fazer o papel de “soldados invisíveis” dos seus interesses. Quanto às atuais MPCs, não existe nenhuma previsão nas convenções das Nações Unidas. E elas caíram no gosto das sociedades exploradoras de agronegócios, como as fazendas de empresas francesas na Costa do Marfim, que é o maior produtor mundial de cacau.

Nesses tempos de terceirizações, comenta-se que o time de Bush força a barra para cima de Kofi Annan, de modo a fazer a ONU substituir os famosos Capacetes Azuis, das forças de paz, por empresas militares contratadas.

Muitos Estados membros apóiam essa privatização para evitar o destacamento de suas tropas para manter a segurança em regiões em conflito. Tropas da ONU já enfrentaram os célebres e bem organizados mercenários Robert Denard, Jean Schramme e Mike Hoare, apelidado de “Mad”. Nos anos 90, diante da impotência militar da ONU, as empresas militares sul-africanas e inglesas, de nomes Outcomes Executive e Sandline International, combateram em Angola contra a Unita. Em Serra Leoa, enfrentaram os rebeldes do RUF, notabilizados por cortar as mãos e as pernas dos seus prisioneiros.

Eleitoralmente, a morte de um empregado de empresa militar e privada no Iraque não tira votos de Bush. O contrário ocorre com um soldado. Afinal, o soldado é convocado para prestar serviço militar obrigatório. Nas MPCs, o empregado assume o risco do contrato, ou seja, estava lá porque queria e a família leva o prêmio do seguro.

Essa estratégia nem sempre é eficaz. Tanto que o premier italiano Silvio Berlusconi, que passa por maus momentos iniciados com o recente assassinato, no Iraque, de Fabrizio Quattrocchi. Por 10 mil euros, Quattrocchi, de 36 anos, fora contratado como body corp pela DTS-LLC, com sede em Nevada. Com contrato de trabalho, crachá e armas pesadas, Quattrochi, um ex-padeiro e lutador de tae kwon do, cuidava da segurança dos membros do Conselho de Governo iraquiano, de juízes e de dutos petrolíferos. Seqüestrado pela Falange Verde de Maomé, grupo de resistência à invasão do Iraque, foi executado em represália à adesão da Itália aos EUA.

Defronte dos seus executores, Quattrocchi levantou a venda colocada nos seus olhos e, à espera dos tiros fatais, declarou: “Vocês vão ver como morre um italiano”. Virou herói nacional, pois morreu em razão da postura sabuja do premier Berlusconi, ou seja, de mandar tropas para integrar a coalizão de invasores do Iraque. Os outros três italianos seqüestrados (na foto, um deles) também trabalham em empresas de segurança.

As MPCs multiplicaram-se pelo planeta. São pessoas jurídicas com contratos sociais registrados nas juntas comerciais. Estão fora do alcance da Convenção de Genebra de 1949 (art. 47). Empregam oficiais aposentados de patente elevada e experiência em combates. Por exemplo, a Vinnell Corporation, sediada no estado da Virgínia (EUA), formou e adestrou a Guarda Nacional da Arábia Saudita. Desde a invasão do Afeganistão e a expulsão dos talebans, as MPCs protegem e garantem o governo de transição de Hamid Karzai e as autoridades estrangeiras. Importante ressaltar que muitas dessas empresas de guerra ambicionam prestar serviços nos morros do Rio de Janeiro, na Tríplice Fronteira (Brasil–Paraguai–Argentina) e na região amazônica, como já revelado por CartaCapital, em 9 de julho de 2003.

Segundo especialistas, existem relações promíscuas entre muitas MPCs e autoridades corruptas, incluindo tráfico de armas, drogas, ouro e diamantes. A aproximação inicial se dá com a prestação de serviços de assistência técnica aos governos adquirentes de armas das MPCs. Como alertou Jean-François Bayart, autor do clássico L’Etat en Afrique, la Politique du Ventre, não faltam “Estados criminais” e “Estados contrabandistas”.


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