São Paulo,  
Busca:   

 

 

Espiões/D.Humanos

 

Violência: Caes de Guerra Corporativos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

OLHO.

Empresas militares transnacionais tomam o lugar de mercenários.

MATÉRIA.

No Brasil, estamos acostumados às empresas comerciais que cuidam da segurança das residências, dos supermercados, das agências bancárias, dos transportes de valores e das pessoas sob risco de seqüestro para o fim único de extorsão patrimonial. Por aqui, não conhecemos as sociedades transnacionais de vigilância especial, sediadas no Primeiro Mundo. Aquelas que prestam serviços comerciais e proclamam seguir o modelo militarizado dos "capacetes azuis" da Organização das Nações Unidas (ONU).

Essas multinacionais contam nos seus quadros com generais reformados, plenos de experiências adquiridas em diferentes campos de batalha e carregados de medalhas por bravura. Essas sociedades comerciais são chamadas de Private Military Companies (PMC).

Não fossem as formalidades e as cláusulas dos contratos sociais de constituição – que as colocam na legalidade como pessoas jurídicas –, poderiam ser confundidas e passar por associações hierarquizadas de mercenários. Ingenuidade de lado, as PMC também assumem a condição de longa manus da CIA norte-americana.

Como regra, as PMC são contratadas para vigiar, proteger e treinar, em países pobres ou em desenvolvimento – marcados por reais ou potenciais conflitos intestinos –, os ditadores e os chefes de Estado ou de governo. Protegem, ainda, a vida dos líderes de oposição, ou seja, desde que classificados na categoria daqueles que não podem sofrer atentados, em razão de estarem afinados com interesses de grandes potências ou de antigos colonizadores.

As PMC são muito requisitadas por grupos econômicos que exploram, pelo Terceiro Mundo, rendosas atividades extrativas. Os mencionados grupos econômicos sentem a necessidade de proteger a posse de áreas e os seus prepostos, esses na condição de residentes estrangeiros. Nessa situação, por exemplo, encontram-se os representantes de cerca de 600 sociedades comerciais que, desde o tempo da colonização francesa, exploram, em grandes fazendas, a cultura do cacau na Costa do Marfim.

Pode-se afirmar ainda que as PMC já viraram moda na África e na Ásia e isso quando ficam na alça de mira pessoas que precisam ser mantidas vivas, pois são fundamentais na abertura ou na manutenção de negócios e interesses geopolíticos.

Para se ter uma idéia, até o corpo de funcionários e de voluntários da Unicef, enviados ao Afeganistão e ao Paquistão, foi garantido pelas PMC. No caso, pela britânica L´Armor Group e pela estadunidense Armor Holdings e durante os conflitos envolvendo os norte-americanos, os talebans, o chefe e os membros da Al-Qaeda.

Coube à Vinnell Corporation Fairfax, com sede na Virgínia, formar e adestrar a Guarda Nacional da Arábia Saudita, incumbida de amparar o soberano doente, parte da sua família real e alguns dos sucessores de sangue azul. Formada por oficiais militares que ocuparam postos de importância no Pentágono e estão na reserva, a Military Professional Ressources Inc (MPRI) constituiu, treinou e monitorou grupos armados que lutaram ao lado dos separatistas na ex-Iugoslávia.

A mencionada MPRI formou grupos de combatentes para ações no Kuwait, na Colômbia, na Guiné Equatorial e na Nigéria, isso depois da morte do ditador-general Sani Abacha.

Na Costa do Marfim, as contratadas PMC e os seus homens apelidados de war dogs, armados até os dentes, protegem as empresas que exploram as fazendas de cacau (primeira produtora mundial), algodão e café (sexta produtora).

Evitam invasões e repelem ataques promovidos por grupos étnicos em conflito e por mercenários liberianos, sul-africanos, israelenses, tchecos, bielo-russos, búlgaros e ucranianos.

Mercenários e o grupo étnico dos betés sustentam o presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo. No meio disso tudo, circulam tropas enviadas pelo presidente Jacques Chirac, inimigo de Gbagbo, para proteção de uma comunidade francesa estimada em 17 mil pessoas. Revoltas, atentados, massacres e luta pelo poder caracterizam a Costa do Marfim e representam um bom nicho comercial para as PMC. Em 1960, esse país da África Ocidental livrou-se da colonização francesa e assumiu a Presidência Félix Houphouët-Boigny. No papel de "pai da pátria", virou ditador e exerceu o poder até a sua morte em 1993.

A partir de 1993, o racismo, a xenofobia e os genocídios ganharam espaço na vida desse país, a ponto de Chirac ameaçar representar ao recém-instalado Tribunal Penal Internacional. Esse país se transformou num território regado a sangue e nele a proteção dada pelos grupos armados consegue preservar os vastas áreas de cultivos de cacau, café, algodão, sisal, óleo de palma, abacaxi, tabaco, etc. E são mantidas as atividades comerciais desenvolvidas nos movimentados portos de Abidjã e San Pedro. O falecido Houphouët-Boigny, quando da independência da França, abriu as fronteiras da nova República da Costa do Marfim aos povos de fronteiras vizinhas. O objetivo foi atrair mão-de-obra barata, com o aproveitamento da situação de desemprego na Libéria, Gana, Mali e Burkina Fasso. Hoje, com uma população beirando os 11 milhões de habitantes na Costa do Marfim, mais de 25% são originários de diferentes países africanos.

Henry Konan Bédié, da etnia baoulé, sucedeu Houphouët-Boigny, mantido o governo nas mãos do Parti Démocratique de Côte D´Ivoire. À semelhança de Slobodan Milosevic na ex-Iugoslávia, Bédié desfraldou a bandeira da ideologia nacionalista e partiu para a chamada "depuração étnica". Apenas os "ivorianos puros" podem possuir as terras e exercitar o direito de voto. Como cercou-se de corruptos que desviavam recursos internacionais, o governo de Bédié caiu internacionalmente em desgraça. E os grupos estrangeiros ligados à exploração do cacau apoiaram financeiramente os rebeldes do Mouvement Patriotique de la Côte D´Ivoire (MPCI), chefiados pelo general Robert Guei, que tomou o poder na noite de Natal do ano de 1999.

O golpe militar durou pouco e, à força, em outubro de 2002, conseguiu Laurent Gbagbo, atual presidente, retomar o poder civil. No ano passado, o general Guei foi assassinado e suspeita-se que a guarda particular de Gbagbo, treinada por uma das PMC espalhadas pelo planeta, tenha sido a responsável pelo crime.

Um dos líderes da resistência na Costa do Marfim é Alessane Dramane Ouattara, que chegou ao cargo de diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Antes disso, ocupou as funções de primeiro-ministro no governo de Houphouët-Boigny. Como os pais de Ouattara nasceram em Burkina Fasso, as leis discriminantes – fundadas na tal "pureza étnica" imposta por Bédié – chanceladas por Gbagbo, impedem que ele concorra à Presidência.

Ouattara é da etnia dioula e muçulmano. O presidente Gbagbo, que esteve preso quando Ouattara era primeiro- ministro e teve de se exilar em Paris de 1982 a 1988, é da etnia beté. É ligado aos evangélicos e aos pentecostais.

Os soldados franceses enviados por Chirac permanecem na Costa do Marfim. Sofrem freqüentes ataques, pois o presidente Gbagbo nutre ódio pelos antigos colonizadores e deseja expulsar as empresas e os residentes franceses. Depois de o presidente Chirac ter ameaçado representar contra Gbagbo no TPI por genocídios, crimes contra a humanidade e manutenção de esquadrões da morte dirigidos por mercenários, veio o troco. Gbagbo propôs aliança aos norte-americanos.

Como se percebe, esse cenário é o ideal para as PMC, pois há conflitos, escaramuças, paramilitares, esquadrões da morte, mercenários, grupos étnicos e bandos armados em profusão.

Nesse ambiente, não faltam armas leves e pesadas, combustíveis, telefones celulares GSM e satelitais do tipo Thuraya. Tudo proveniente de Burkina Fasso e, segundo fontes de inteligência, do Egito e, surpreendentemente, da Líbia, sob embargo de compra de armas imposto pela ONU. As drogas são empregadas como moeda para a troca e a compra. Uma parte da droga fica na Costa do Marfim para cobrir as despesas de transporte, pois essas provêm de narco-estados fronteiriços, como Guiné Equatorial e Libéria. Em resumo, um grande caos no qual não falta a moda das Private Military Companies. Muitas dessas PMC ambicionam prestar serviços nos morros do Rio de Janeiro, na Tríplice Fronteira e, na região amazônica, em pontos da fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL, 9 de julho de 2003.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet