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ONU: DIA PARA LEMBRAR AS VÍTIMAS DO HOLOCAUSTO.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL






No calendário das Nações Unidas, o 27 de janeiro estará sempre reservado para a recordação das vítimas de holocaustos, ou seja, das tragédias, dos massacres, dos genocídios, dos crimes contra a humanidade.

Pela memória do desumano busca-se estabelecer uma cultura de paz e, no elenco das vítimas, encontraremos ciganos, negros, armênios, curdos, judeus, palestinos, homossexuais, deficientes físicos e mentais.

Na semana anterior a essa importante data estabelecida pela ONU, dois fatos tocaram corações sensíveis e canalizaram mentes para os escritos de Hannah Arendt, grande filósofa da segunda metade do século XX, sobre a “Banalidade do Mal”. Para a pensadora nascida na Alemanha e naturalizada americana, o mal não é misterioso, mas, sim, banal. É algo que entendemos e podemos afastar.

Repaginados e com o novo rótulo de Brigadas da Vingança Turca, os raivosos Lobos Cinzentos voltaram para mostrar, na sexta-feira 19, em Istambul, a força da direita extremista, xenófoba e fascista. Misturado a transeuntes, um jovem desferiu três tiros certeiros e fatais contra o jornalista Hrant Dink, de origem armênia. Dink saía da redação da revista semanal Agos, que fundou, dirigia e era publicada em turco e armênio. Igual modo de atuar havia sido utilizado pelo mais famoso dos membros dos Lobos Cinzentos, Mehmet Ali Agca.

Ali Agca matou a tiros, em 1979, o jornalista Abdi Ipecki, odiado pelos ultranacionalistas turcos. Dois anos depois, em 13 de maio de 1981, atacou o papa João Paulo II, na Praça São Pedro, no Vaticano.

Como lembrou o sociólogo suíço Jean Ziegler, coube ao turco Alpaslan Tuerkes, apelidado Basbug (capo-chefe), fundar os Lobos Cinzentos, organização responsável pelas execuções de presos políticos, intelectuais e curdos.

Antes do assassinato, Dink, de 52 anos, tinha sido condenado por sustentar a ocorrência do massacre de 1,5 milhão de armênios pelos turcos em 1915. Na Turquia, tal afirmação tipifica crime de insulto à identidade nacional. A condenação e a concessão de liberdade provisória a Dink mostraram-se insuficientes para acalmar os fanáticos nacionalistas. E vale observar não ter Dink, embora já provado, incluído o genocídio de 30 mil curdos pelos turcos.

Afirmações semelhantes à de Dink fizeram, posteriormente, Orhan Pamuk, último ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, e a bela escritora Elif Shafak, de 35 anos, autora do best seller O Bastardo de Istambul.

Na Turquia, o jornalista Dink era estimado pelos progressistas e pela comunidade armênia, composta de mais de 80 mil membros. Colaborador de dois jornais, Zaman e Birgun, Dink afirmou-se como defensor dos direitos humanos, do pluralismo e da democracia. Era formado em zoologia e pós-graduado em filosofia.

Filho de pais separados e que não quiseram a sua guarda, foi colocado num orfanato aos 7 anos. Lá conheceu a esposa, a quem dedicou, até a morte, poesias e escritos.
ONU:27 janeiro.



O assassinato de Dink vai complicar ainda mais a aceitação da Turquia como membro da União Européia. Além de não se adequar ao standard estabelecido, a Turquia tornou-se palco de intolerâncias.

Nem o governo moderado do premier Recep Tayyip Erdogan consegue empolgar o Parlamento para, em face de condição da União Européia, abolir crime que representa um atentado à liberdade de expressão. E não fazer parte da União Européia é tudo o que a ultradireita deseja para a Turquia.

Quanto ao segundo fato, no sábado 20, depois de 62 anos, o Tribunal Militar de La Spezia condenou dez participantes dos massacres promovidos pelos nazistas nas cidades italianas de Marzabotto, Grizzana e Vado di Monzuno. Em 29 de setembro de 1944, tropas da SS sob o comando do já falecido major Walter Reader massacraram 1.830 civis. Entre eles, Walter Cardi, de duas semanas de vida.

Sem refletir sobre a Turquia, organizações hebraicas, com o infeliz apoio do ministro da Justiça italiano, levaram à União Européia proposta a fim de ser tipificado como crime, nos estados membros, condutas que neguem a ocorrência do Holocausto na Segunda Guerra Mundial.

A respeito, muitos esquecem que existem montanhas de documentos irrefutáveis, fotografias, filmes e testemunhos de pessoas ainda vivas (algumas tatuadas com o número de registro de Auschwitz), a comprovar, de maneira induvidosa, os massacres de judeus nos campos de concentração nazistas. E sacrificar a liberdade de expressão pelo temor a falsos revisionistas, entre eles o presidente do Irã, não representa postura sensata.

WFM, janeiro de 2007.


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