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O ESPIÃO DE BATINA- segunda parte.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Wielgus, mentiu ao papa.




OLHO.

Acusações e Venenos: pinçado, o documento do então poderoso serviço de espionagem polonês (SB) revela que Wielgus colaborava com o regime comunista polaco.

Depois da divulgação, Wielgus renunciou ao arcebispado de Cracóvia. O cardial Gemp, privaz da Polônia, defendeu a nomeação de Wielgus junto ao Papa Bento XVI.

Wielgus diz ter informado ao papa sobre a colaboração, mas o Vaticano o desmente. Os irmãos gêmeos Kacynski (presidente e premier) continuam o acerto de contas com os comunistas.

Para Lech Walesa, ex-presidente, fundador do Solidariedade e prêmio Nobel para a paz, a culpa pelo vazamento do dossier é dos comunistas: "Eles perderam o poder, agora querem desestabilizar".

MATÉRIA.

Os métodos priorizados pelos serviços de espionagem da Europa do Leste, ao tempo da Guerra Fria, consistiam na infiltração de agentes de inteligência, na arregimentação de colaboradores afinados ideologicamente e na cooptação de informantes, esses a pagamento ou mediante promessas de vantagens. Dentre as promessas havia a de ascender na hierarquia eclesiástica, como ocorreu na Polônia comunista, a partir de 1953: as nomeações vaticanas tinham de ser referendadas pelo chefe de Estado polaco e o protesto corajoso do cardeal primaz da época motivou a sua prisão.

O revelado pelas fontes de espionagem gerava dossiês, todos mantidos em arquivos secretos e vigiadíssimos. Na URSS e no prédio da Lubianka (misto de quartel-general da KGB e centro de torturas), os botões internos nos elevadores não tinham número e as suas posições topográficas não representavam uma seqüência lógica. Em cima das portas externas não havia painel para identificar os andares das suas paradas.

Até o Estado do Vaticano sempre teve seus informantes e o papa Pio XII faleceu com odor de colaborar com os nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, fato contestado com veemência pela Santa Sé.

Poucos sabem que o falecido Yasser Arafat salvou o papa Karol Wojtyla. Na véspera do embarque de Wojtyla ao Líbano, em 1994, Arafat enviou-lhe uma informação top secret. Graças a isso, conseguiu-se abortar um atentado programado por extremistas islâmicos, que nem os cristãos maronitas libaneses cogitavam.

No atual papado, no entanto, a desinformação parece ter se tornado regra. O monsenhor Stanislaw Wielgus, nomeado pelo papa Joseph Ratzinger para cardeal-arcebispo de Cracóvia, era um espião que serviu, desde 1967, aos dirigentes comunistas da República da Polônia. Pelo que se sabe, o monsenhor Wielgus vendeu a alma para o diabo, ou melhor, para a Sluzhba Bezpiecienstwa (SB), o famoso serviço secreto polonês, supervisionado pela KGB.

Bento XVI, não sabia do passado de Wielgus.



Não se descarta que Wielgus tenha espionado Wojtyla, em Cracóvia. No seu mea-culpa, Wielgus, de 67 anos, admitiu ter assinado um compromisso de colaboração com os comunistas em 1978 e recebido em troca um passaporte com visto para a Alemanha, a fim de, como modestamente frisou, “continuar um trabalho científico desenvolvido para o bem da Igreja”.

Num primeiro momento e antes de renunciar à designação, Wielgus mentiu ao papa ao sustentar ser falsa a notícia da sua colaboração com a SB, publicada no jornal Gazeta Polska. Sem apuração e certamente sem ouvir os berros de Wojtyla vindos da cripta vaticana, expediu-se nota dizendo nutrir o papa “plena confiança” no ungido Wielgus.

No último fim de semana e já materializada a renúncia de Wielgus, novos documentos foram fotocopiados do Instituto da Memória Nacional de Varsóvia, que abriga a quase totalidade dos arquivos da SB. Segundos dados coletados, nos anos 70 e 80 cerca de 10% dos 25 mil clérigos polacos colaboraram com a SB.

Outro fato inquietante diz respeito ao clérigo Michael Jagosz. Como lembrou o jornal Corriere della Sera na sua edição dominical, Jagosz preside a comissão que cuida do processo de beatificação de Karol Wojtyla e responde pela basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma. Em agosto passado, na basílica, ele foi abordado por um repórter da televisão pública polonesa sobre a sua colaboração com o SB. Jagosz respondeu ter sido contatado pelo SB, como tantos outros sacerdotes, mas que nunca lhes deu qualquer informação.

No episódio do espião de batina Wielgus existem algumas certezas. A Polônia, como já chamou a atenção a União Européia, trilha um caminho xenófobo, racista, anti-semita e com interesse governamental em pinçar de arquivos fatos a eliminar da vida pública antigos colaboradores dos comunistas.

O chefe de Estado e o de governo são irmãos gêmeos. Os gêmeos Lech e Jaroslaw Kacynsky, caso vivessem no Brasil, teriam lugar de honra na Tradição Família e Propriedade (TFP).

Interessante notar que os vazamentos começaram a ocorrer um mês depois da morte de João Paulo II, a indicar temor por mudanças. Não se deve esquecer, como ocorreu na ditadura militar brasileira, que arapongas e colaboradores nunca hesitam em inventar fatos e carregar nas tintas dos dossiês.

O certo é que poucas nações passaram pelos sofrimentos da Polônia: em 1939, as invasões pela Alemanha e União Soviética. No pós-1945, ditadura comunista até 1980. Não bastasse, experimenta, agora, o governo dos ultradireitistas gêmeos Kacynsky, que vivem às turras com a União Européia e insistem com a lustracja, ou seja, necessidade de identificar e perseguir as “viúvas” do comunismo.


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