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Espiões/D.Humanos

 

SPY x SPY. Voltam os envenenamentos. Na foto, símbolo da KGB, substituída pela FSB.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

A marca KGB, hoje disputada em bancas de venda de quinquilharias.KGB= Komitet Gosvdarstvenno Bezopasnosti.



Espião ou prostituta? Até hoje, não se sabe bem qual das atividades é a mais antiga. Ninguém duvida, no entanto, ser a primeira a mais problemática. Como ensina Walter Laqueur na sua obra A World of Secrets (1985), os espiões surgiram quando os homens sentiram necessidade de recolher informações sobre a força e a intenção das tribos vizinhas e dos clãs.

Da coleta de informações aos assassinatos dos inimigos foi um pulo. Em 1940, na Cidade do México, Trotski levou uma picaretada fatal no crânio, desferida por agente da espionagem stalinista.

A escola soviética de espionagem sempre preconizou assassinatos por envenenamento. Em Moscou, a Kamera, ou Laboratório 12, disponibilizava venenos aos killers da KGB. O fato ficou tão conhecido a ponto de James Bond, numa trama do filme Casino Royal, ter sido envenenado.

O Laboratório 12 agora prepara venenos para a FSB e a SVR. A primeira, sucessora da KGB, dedica-se às chamadas operações sujas e ações de contra-espionagem. A SVR atua no exterior contra inimigos.

Na sexta-feira 24, morreu envenenado, em Londres, Alexander Litvinenko, de 43 anos, e ex-tenente-coronel da KGB e da FSB. O veneno foi o radioativo, polônio 210, descoberto em 1902 pela física Marie Curie. Como ela nasceu na Polônia, o metalóide virou polônio.

Apelidado Sasha, Litvinenko apontou o presidente Putin, seu ex-companheiro de KGB, como mandante do crime. Como de hábito, Putin demonstrou acreditar que a melhor defesa é o ataque. Assim, acusou os ingleses de provocação pelo vazamento da fala de Sasha.

O ataque de Putin, entretanto, não alterou o rumo das investigações conduzidas pela espionagem britânica (MI5) e pela Scotland Yard. Ambas procuram informações sobre 30 espiões russos em Londres, todos sob a capa de funcionários administrativos da embaixada russa.

Em outubro, na Finlândia, logo depois do rumoroso assassinato da jornalista Ana Politkovskaya, Putin, acuado pelas denúncias de violações de direitos humanos e acobertamento de crimes, atacou a Itália e a Espanha. Como a sugerir que os estados membros da UE olhassem para o próprio rabo, disparou: “A Itália é o berço da máfia e na Espanha muitos prefeitos estão na cadeia por corrupção”.

Sede da KGB, hoje FSB.


Politkovskaya reunia provas de massacres de chechenos pelas forças russas. Quando retornava do supermercado, recebeu quatro tiros de pistola Makarov, de uso privativo das forças policiais russas.

Para a espionagem russa, Sasha era traidor. Foi ele, em 1998, quem avisou o oligarca Boris Berezovski do plano da FSB para matá-lo. O general Khorkholkov caiu e Putin, graças a Sasha, virou chefe da FSB.

Na Presidência de Boris Yeltsin, Berezovski foi designado para negociar um acordo com os rebeldes separatistas chechenos. Com risco de assassinato e inimizade com Putin, o oligarca Berezovski mudou-se para a Londres em 2003.

Sasha também fugiu para Londres depois de acusar o governo Putin de ter forjado, em 1999, ataques terroristas que falsamente atribuiu a separatistas chechenos. Segundo Sasha, isso acarretou a morte de 300 civis russos e acabou usado como justificativa, interna e internacional, para Putin mandar invadir a capital Grozny e massacrar chechenos.

Em Londres, Sasha foi recebido pelo magnata Berezovski e passou a residir em imóvel de 700 mil euros, pertencente a uma off-shore das Ilhas Virgens Britânicas. A off-shore é controlada por Berezovski.

No dia fatídico, Sasha almoçou num restaurante japonês, na companhia do comissário italiano Mario Scaramella. Por volta das 16 horas, rumou para o sofisticado Bar Millennium, do Hotel Mayfair, a fim de se encontrar com o ex-companheiro de KGB Andrei Lugovov. De Moscou, Andrei garante ter estado em Londres para assistir a uma partida de futebol e aproveitou para rever o amigo Sasha.

Na presidência de Yeltsin, Andrei esteve incumbido de proteger Berezovski, tornando-se seu amigo. Com Putin na Presidência, acabou expulso da FSB e preso. Misteriosamente, saiu da prisão e tornou-se um bilionário moscovita.

SASHA: "os bastardos me apanharam, vou morrer. . ."


Para os 007 britânicos, o Kremlin já avisou: “O ex-agente Sasha teria sido envenenado por ordem do magnata Berezovski, ligado à vítima. Assim, houve um complô para criar dificuldades ao inimigo Putin”. E, pela amizade, ninguém desconfiaria de Berezovski.

A MI5 não descarta a tese russa, mas levanta outras suspeitas:
1. Vingança do serviço secreto russo, pois Sasha tornou-se um opositor incômodo. O uso de polônio seria um indício contra o serviço secreto russo: o polônio é restrito e eficaz só por quatro meses.
2. Nas investigações sobre o assassinato da jornalista, Sasha teria chegado à participação de chechenos ligados ao governo russo.
3. Sem intenção de morrer, Sasha envenenou-se para, quando restabelecido, acusar Putin: errou na dose.

WFM/Cara Capital, dezembro 2006.


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